quarta-feira, maio 24, 2006

CODA, O TEATRO CONTEMPORÂNEO VALENDO A PENA

O Théâtre du Radeau tem sede em Le Mans. Quem gosta de corridas de automóveis ou de filmes de Steve McQueen já ouviu falar da cidade.
(domingo a noite fez frio. Tanto que me resfriei. Quarta pela manhã faz calor. Tanto que minha coriza é contínua. A sensação é de um iceberg derretendo dentro de minhas narinas)
A apresentação dura algo em torno de uma hora. Termina com um terço da platéia que lotava as arquibancadas tendo saído. O grupo restante aplaude de pé. Não que isso seja grande coisa, ser aplaudido de pé em Curitiba. Diferente do mito, quando o assunto é teatro e dança, o aplauso efusivo e entusiasmado, com as bundas oscilando acima dos assentos é comum. O caso é que nesta apresentação os aplausos são merecidos.
(tente escrever um texto com o líquido do próprio corpo tentando afoga-lo. É terrível. Se bem que se eu realmente tivesse um iceberg dentro do nariz seria pior. Milhares de pingüins de vezes pior)
O diretor é François Tanguy, um homem de mais de um metro e oitenta e rosto simpático, a não ser nos muitos momentos em que se perde em suas próprias elucubrações. Bebendo uma caipirinha no Café do Teatro, mantém o cenho cerrado por longos minutos enquanto Dominique fala sobre Vale-Tudo e das duas vezes em que teve o crânio rachado.
(se eu realmente estivesse em um dos Pólos, provavelmente meu nariz não escorreria. Realmente teria um iceberg nas minhas fossas nasais e morsas acasalando nos seios paranasais)
Laurance tem uma performance impressionante. Todos têm, mas Laurance possui qualidades que a diferenciam. Frode é muito bom, como todos os outros, com seu trabalho de voz unitonal. que beira a assepsia. Mas Laurance chama a atenção pela qualidade com que se move e conduz o texto. Em um movimento único vai da entrada em cena à saída como se fosse um rio desmoronando da nascente à foz no espaço de quinze minutos.
(Curitiba já foi mais fria. Hoje chega a ser banal o calor que nos obriga. Realmente, algo se perdeu. Talvez eu devesse agradecer pela não existência de pingüins, ou focas, ou ursos polares com suas grossas pelagens brancas. Talvez)
Cada um dos performers guarda qualidades. Dietrich até bem pouco tempo era arquiteto, na Alemanha. Um convite de François o fez mudar-se para Lê Mans. Não é um jovem. É um homem na roda de seus sessenta e mais alguns anos. Uma presença fortíssima em cena. A bengala que apóia seu corpo acometido por dores na coluna reforça detalhes. É velho, mas é jovem. Mudar é algo que chama coragem.
(terça-feira, após uma conversa com várias pessoas do meio artístico de Curitiba, deixamos o Porto Rebouças e vamos até o Café do Teatro. Eu de moto, a maioria de van, alguns de carona com Mônica. Já estou com meu iceberg nasal. Acelerar é um vento nórdico. Talvez devesse ir mais devagar. Mas é impossível)
O cenário é composto por imensas paredes móveis. Cada uma delas com acabamentos diferentes. Uma é madeira, outra é plástico, uma terceira é feita de alguma liga acrílica, outra tem revestimento de tecido, e por aí vai. Cada uma delas com graus diferentes de translucidez. Em movimento constante, cortando as linhas pelas quais circulam o som e a luz, reforçam a sensação de transitoriedade e falta de enredo. Pelo menos do enredo padrão, aquele com começo meio e fim, concatenado para alegrar a lógica mais tosca. No constante movimento da paisagem cênica emerge a harmonia do caos.
(o atendimento no Café poderia ser melhor. A comida demora e não está bem temperada. Muita gente, poderia ser objetado. Mas isso só piora a situação. Converso com François a Dominique sobre besteiras que tornam a vida palatável. François repete que não existe método, apenas uma busca constante. Trabalhar feito super-produção, com material pronto e que quase garante a alegria do público lhe parece imoral. Talvez. Assim como o vinho consumido em garrafas e taças, algo se esvazia pelo sabor raro. Algo se nubla pelo excesso de satisfação)
Certamente o texto tem sua lógica. São recortes de Kafka, Artaud, Holderlin, Gadda, Dante. São palavras que contam histórias fechadas em si, mas que transbordam significação para a cena. Se pelo menos fossem ditas em português valeriam outra coisa, mas ditas em francês e alemão, tornam-se opacas à maioria dos ouvidos. Se bem que François jura que isso não importa. E talvez eu seja obrigado a concordar.
(o público é hedonista e busca a própria satisfação. Egoísta, só enxerga a si mesmo e perde assim a oportunidade de enriquecer os sentidos com algo além daquilo que conhece. Satisfação garantida, é isso que a maioria pensa ser o certo. Reiventar os modos de se satisfazer é o que o Théâtre du Radeau propõe)
Mônica leva Dominique – outra Dominique, mulher, nossa amiga – para casa e depois deixa o pessoal no hotel Slaviero. Estou com sono e meu Iceberg avança mar afora, ameaçando Titanics e outras potestades. Amanhã tenho que escrever este texto. Hoje preciso dormir como ontem não o fiz a contento.