quarta-feira, setembro 06, 2006

para danusa

Confesso! Confesso que sou muito metida e acho sempre possível dar um passo adiante, ainda que imersa num atoleiro. Que acreditei que seria uma heroína de romance, mas seria resgatada por um príncipe; que estou cansada das más surpresas da vida mas me acho ótima sempre que sobrevivo a elas; que me acho linda, mas queria que meu traseiro fosse menor e mais firme; que amo meu trabalho, mas preciso de um semestre sabático; que minto para minhas amigas sem filhos que filhos nem dão tanto trabalho assim, apesar de achar que vale à pena (a mentira e os filhos); que homens são ótimos e que quero um belo espécime para mandar em mim; que parar de comer trigo é muito mais difícil do que as pessoas pensam; que finjo nem precisar de minha mãe superpoderosa, mas adoro quando ela paga a conta do dentista; que sou doce, mas ai de você que não notar isso!; que vou ao terapeuta, escuto atentamente seus conselhos e depois faço tudo ao meu modo; que meto mesmo a colher onde não sou chamada, especialmente nas panelas das amigas que não cozinham tão bem quanto eu; que faço ares blasé para os moços interessantes, abnegadamente dando-lhes a oportunidade de honrarem as suas calças e me provarem errada; que eu apanhava muito quando era criança e dizia em seguida, engolindo o choro e mostrando a língua: nem doeu.
Eu confesso!

- Pronto, senhorita Yanes. Agora é só assinar. Confesse! Confesse ou irás direto para a fogueira!

terça-feira, setembro 05, 2006

ÉTER

Existe um tipo de silêncio que grita. Não aquele da física quântica, que limita o tempo ao Big Bang, mas aquele da termodinâmica, que afirma que antes do Big Bang havia o espaço vazio ao redor, no qual oscilava a densidade; e, sendo assim, mesmo antes do início, já havia algo, já havia o tempo. Saber disso, optar por isso, dá esperanças de que depois do fim também haverá algo, talvez menor que o burburinho branco que é esta vida, talvez fluído e irreal como a densidade no vazio, um silêncio vibrante tanto que, em algum momento, zilhões de anos na eternidade, ecloda um novo primeiro momento e dele nasça uma nova possibilidade de mim.